Contra a violência de gênero, pense nos seus filhos

Vilma Medina Vilma Medina Diretora de Guiainfantil.com

Sempre me chamou a atenção que muitas mulheres vítimas da violência de gênero demoram em denunciar por causa dos seus filhos. E isso parece lógico, sobretudo quando elas são economicamente dependentes dos seus companheiros e os seis filhos dependem do sustento paterno para continuar com a sua vida. 

No entanto, aguentar essa situação é muito pior para os filhos do que nós imaginamos. A Academia Americana de Pediatria (AAP) afirma que “ser testemunha de violência doméstica pode ser tão traumático para a criança como ser vítima de abusos físicos ou sexuais”. 

As crianças menores de 5 anos são as mais prejudicadas

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As crianças que vivem expostas à violência de gênero no seu ambiente familiar, ou seja, que vivem em um lar onde o seu pai ou o companheiro da sua mãe é violento contra a mulher podem sofrer problemas físicos, transtornos psicológicos, problemas de comportamento e dificuldades cognitivas derivadas da sua exposição à violência. Essas crianças presenciam atos violentos e são testemunhas diretas das agressões à sua mãe em 70 a 90% dos casos. Ouvem gritos, insultos, barulhos de pancadas, vêem as marcas das agressões, percebem o medo e o estresse no olhar da mãe e estão imersas num ciclo de violência. 

Os cuidados, atenção e afeto que as crianças menores de 5 anos reclamam, não podem ser respondidos adequadamente pelas suas mães, as vítimas, e são o grupo de idade mais exposto e vulnerável à violência. Esses meninos e meninas apresentam perda de peso, alterações no sono, transtornos da alimentação, problemas de controle dos esfíncteres, ansiedade, tristeza e choro inconsolável. Podem se comportar com mais agressividade nas suas interações pessoais e, com frequência, se sentem responsáveis pelos conflitos entre os seus pais. 

Os meninos e as meninas entre 6 e 12 anos têm maior controle das suas emoções, capacidade de raciocínio, e um círculo social mais amplo. Também imitam os papéis dos seus progenitores, sentem preocupação ou enfado pela atitude da mãe vítima, mas curiosamente mostram admiração diante do poder e a força do pai violento. Apresentam mais medos, problemas na escola, comportamentos agressivos, isolamento, ansiedade ou depressão, além da diminuição da sua autoestima

Nos casos em que os pais acreditam manter seus filhos distantes das cenas de violência, os sintomas secundários e a exposição da violência nos lares continuam sendo detectados. É frequente o desacordo entre os progenitores na forma de educar os filhos. Além disso, o agressor pode apresentar comportamento agitado, intransigente, e disciplinar com seus filhos, mostrando-se muito irritado, chateado e pouco carinhoso. A mãe pode ter, quando está sozinha com seus filhos, um comportamento diferente com eles, com frequência com superproteção. As consequências psicológicas da violência que a mulher sofre (ansiedade, depressão, medo) fazem com que ela não consiga responder de forma adequada às necessidades dos seus filhos, devendo enfrentar com frequência outros problemas como a falta de dinheiro ou o desemprego. 

Marisol Nuevo